domingo, 28 de maio de 2017

Saber as dores

poema tardio. pelo dia 27.

Este equilíbrio
de sentir o toque
enquanto tenta rir
e ridiculamente chora
ao mesmo tempo
ao sentar frente a frente

na franqueza de conversas
embora perdidas entre
sonhos à noite

ainda teremos
a vitrola tocando
algum disco
herdado de um amigo
que desvaneceu no tempo

pouco a pouco
como lágrimas de riso
no fim de tempos alegres

enquanto dorme
recosta lânguidos cabelos
sobre a guarda da cama.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Ondas

poética sobre teu sonho

As ondas. O som mais audível da rebentação. Incoerentes. Ondas. Como qualquer medo que nunca tive. Elas, concisas. Eu parada. Me levariam embora e dormiria ao mar. Eterno. Não me atingiam. Rente ao mar, mirava as amadeiradas casas. Longe. Socorro. Estática dentro da redoma. Estáticas. Ondas.

domingo, 14 de maio de 2017

Era sobre o filme

Não peça os versos. Reza aqui um nulo, estou a perder o ritmo, a brancura de algo que nunca foi meu, nunca fui bom nisto, os versos. Só queria dizer: assisti a um filme noir e lembrei* de te escrever, não por imposição, mas porque preciso acalmar tudo. Seria tão fácil se pudesse sentir por último o úmido da deliciosa bala. Deveria carregá-la na boca, como uma estupidez sábia, só pra ver desfilarem as caras a usar óculos démodé por uma semana. Queixosamente afirmariam a novidade até o esquecimento tão rápido e tão enxovalhado de mentiras. Até pareceria que sou bom perto de tanta fala. Well, my friends are gone and my hair is grey. Seria lindo se pudesse ver. É, talvez a única herança foi essa insanidade. Se por pai, se por mãe, não sei. Mas desculpa a falta de conteúdo, o narrar por narrar, sempre dei voltas, muitos intertextos pra enfim chegar ao consenso e resolver (nem tão) bem a narrativa. Fazer enxertos pra não expressar nada, nunca ter conteúdo, como muitos romances que éramos obrigados a ler, cheios de detalhes, meros irrelevantes a tudo pra, no fim, não termos surpresa no desfecho. A página pela página, o texto pelo texto. Estou me estendendo muito, mas não há muito a saber, além de estar propriamente perdido em meio a emaranhados onde – sim – não deveria estar. Foi só me perder, foi só deixar um instante a distração submergir e a rebentação levou pra longe. As mágoas ficaram. Ficarão. (Irão se apagar?). Alguém disse que as escolhas ruins serão sempre lembradas. Alguém também disse que nunca se supera nada. Mas, na verdade, queria mesmo era contar do filme, porque um velho em um café disse a alguém que, aos vinte, não há de se saber, as coisas passam feito sopro, como algum trecho do Dumas pai, mas não prestei atenção e isso é bem mais costumeiro do que imagina. Sim, deveria voltar a tomar os remédios. Deturpei as falas, mas o sentido é o mesmo. Agora me veio em mente: será mesmo que os livros são sempre melhores que os filmes? Sempre pensei que teria uma canção pra encerrar com as letrinhas, achismos da vida. Não é por mal, não é porque não goste, não é por nada mesmo, não quis brincar com nada. Reencontros acontecem de vez em quando, como nas músicas populares e, pra falar a verdade, sempre acreditei nelas. Um dia pode acontecer. Stars fading... Era a nossa, né? Mas as coisas não se apagam assim, tá bom? Preciso me encontrar, de verdade, por mais que tudo ande ruim, ainda tenho essa esperança de me encontrar e, sinceramente, pode até ser que me enrole nos lençóis de outros, mas não vai ser a mesma coisa. Como na tarde na qual rodei a cidade pra tentar esquecer e, no fim, acabei correndo pro carro esconder o rosto entre o volante e o painel, porque você não estava lá. O que foi nosso será sempre nosso. Sim, estou arrebentado e tenho certeza de que está mais, muito mais. E não foi a intenção. Nunca foi. O plano era a felicidade. E fomos, fomos muito. Perdoa toda a tristeza, mas quando for hora de perdoar. Não queria ir, mas preciso do mundo, preciso descer a montanha russa e ver o que há embaixo, descobrir a casa das máquinas e os botões na insistência de não ler algum manual de instruções. Queria conhecer deus e livrar as dores. Minhas. Tuas. Me encontrar e não ter mais de sentir o peso de fazer escolhas, sejam certas, sejam erradas.  Isso tudo não estaria aqui se não amasse. É dúbio, não é? Era pra ser conciso, tanto quanto os amigos cada vez mais concisos. Bem mais. No fundo, eu afastava tudo, todos, dia a dia. Seria tão mais fácil viver no filme noir, porque era isso que vim dizer: o filme termina quando deveria ser o ápice. Mas, por favor, escuta: um dia me perdoa?















*por lembrança, entende-se: imensurável desejo, enorme, enorme.

domingo, 23 de abril de 2017

Você gosta de poucas palavras

É que tudo desvanece
tácito entre a sala
e as anedotas sinceras
para não encarar o amargo
lúcido que ainda resta
recostado sob a cadeira
enquanto longe
vagam pequenos
grãos de poeira.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Elipse

Límpida, como os olhos grandes. Não sei mais se eram meus ou teus, não tive tempo de reparar a não ser na textura da mesa, sempre à nossa espera. Ajeitava tão breve a blusa para que não pudesse encarar o resquício de pele fora dela, enquanto predominava leve o constrangimento. Talvez foi essa a despedida. A textura. Escondia teus braços embaixo dela, para que não mostrasse nervoso de nada, tão firme quanto os parafusos da estrutura, enquanto ligeiramente flertava com a chamada não atendida no celular. Foi desde aí que não nos ligamos, não trocamos mais uma palavra a respeito de tudo. Não nos cobramos nenhuma explicação a respeito das correspondências que insistiam em chegar, cheias de prazos urgentes, de livros em que assinava nomes distintos em cima de aquarelas bonitas, de tantos personagens novos. Você não falou mais das expectativas de conhecer um país em sonhos à beira de um rio podre, mas que parecia tão onírico quando eu afirmava, rindo, que escutaríamos nossa canção enquanto caminharíamos em torno dele (você ainda lembra?). Talvez seja a mágoa de velho, do desvalido, de achar que ainda guarda lembrança de poucas coisas trocadas por nós que não fossem lençóis do colchão da nossa quitinete, tão boa opção para recém-casais, conforme o anúncio, mas que progressivamente encurtava meus pensamentos enquanto os teus entravam pela porta da frente. Talvez não seja mágoa, não, mas o carinho da lembrança, da memória em ver no espelho traços de mim que recordam esses dias. Hoje, talvez esteja à beira do rio, enquanto entoa nossa canção (você ainda ouve?) com carinho (você ainda sente isso por um momento?) de despedida. Não desejo mais pensar em todas essas coisas das quais não experienciamos, porque seguimos em frente, tão opostos quanto nunca fomos, estarmos forçados a não seguirmos mais pelas mesmas ruas, mas nos cruzarmos em quase todas as esquinas ou nos quarteirões de romances tolos em que poderiam sermos nós os personagens, ou na fala de outros, nas notícias do suplemento literário, nas lembranças de amigos, naqueles que às vezes perguntavam, ou quando perguntei, por alguma falha estranha, por permissão de saudade que, naquele momento, parecia tão errada de se sentir. Sabe, andei imaginando aquele dia em que te disse, conciso, sobre estar gostando da tua maneira e isso não poderia ser bom, a não ser que aceitasse as completas, pela mágoa grande, cicatrizes que carregava na pele, enquanto prometíamos não sermos isso, o mero corte de nossas gargantas. Você lembra o que fiz depois disso?... Dei a lembrar tão vago dessas miudezas, mas você talvez não lembre (por favor, não). E sem querer, me vi a deambular por nosso lugar, talvez por engano, um descuido... rememorei a velha mesa texturada onde repousava límpida, como naqueles dias, como a fagulha da lembrança tão apagada de nossas vidas: se um dia nos encontrássemos, seria sereno nos perdermos neste espaço.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Corpo

Leve, além, estar como Ulisses
pôr-se a navegar.
Como feito, um dia disse:
confuso, calmo remar.

Revolto, descansa em paz
esquálido, louco, fugaz,
acaricia a tenra pele, jaz

terça-feira, 3 de maio de 2016

Demasia

O exercício do leve véu
desalenta o breu
antes sereno, mera pintura
sob o olhar de meia-vida
à pobre luz

dentre mortos, somos entes
vivos em terra, podres em mente
enquanto Ele, soberano,
é afã de risos
a debochar
aflições